Em destaque

A minha vida de autista

Muitos perguntam como é a vida do autista. Aqui eu relato um pouco sobre isso.
Desde bebê apresentei um desenvolvimento atípico (não olhar nos rostos das pessoas, não atender pelo nome, preferir o carrinho do que o colo, não dar os braços para pedir colo, passar muito tempo na mesma atividade repetitiva, crises de ausência, sensibilidade a barulhos, choro intenso, etc) que fez com que minha família tentasse procurar respostas através do médico, mas nunca obtiveram, porque faltava conhecimento. Nossa cidade é no interior, e minha mãe nunca havia ouvido falar em autismo. Se hoje em dia é difícil capacitação profissional, imagina a mais de 20 anos atrás.

Assim eu cresci com elas mesmas contornando as situações. Eu não tenho pai, então quem me criou foi minha mãe, tia e avó. Sou abençoada porque elas foram extremamente importantes no meu desenvolvimento. Foram minhas professoras, minhas terapeutas, minhas amigas. Sem diagnóstico, sem conhecimento, elas fizeram a maioria das coisas certo. Elas me estimulavam, me respeitavam e me amam como eu sou. Sou o que sou por causa delas.

Eu nunca fui uma criança “fácil”. Tinha crises de grito e choro que fazia com que os vizinhos fossem até nossa casa para ver o que estava acontecendo. Minha mãe saía as vezes de madrugada comigo gritando, bater na porta do médico, da benzedeira. Elas recorriam a tudo porque nada resolvia. Teve uma época que minha tia e avó achavam até que tinha algum espírito me atormentando, porque aquilo não era normal. Enquanto eu crescia, ouvia minha avó dizer que uma hora iria baixar polícia e conselho tutelar em casa por conta disso. Nunca aconteceu, graças a Deus.

Eu tinha várias dificuldades de comunicação apesar de ser verbal. Falei na idade normal, andei mias tarde, mas não usava as palavras para me comunicar, para pedir, para mostrar, para contar algo. Eu me irritava e começava a chorar e ninguém sabia o que era, as vezes era fome, era calor, era a roupa que me incomodava, mas eu não sabia dizer.

Com dois anos comecei a me interessar por letras. Eu olhava muito livros, cadernos e minha mãe percebeu que eu gostava de letras. Aos 3 anos tive meu hiperfoco ( interesse muito forte) em dinossauros. Tudo era dinossauros. Fitas cassete, desenhar, querer escrever. Então ela comprava revistas e livros sobre o tema. Comprava almanaques da turma da Mônica, onde tinha o filhote de T-rex, Horácio. Isso era um incentivo. Eu comecei então a copiar os desenhos dos livros (atualmente eu desenho copiando de fotos de pessoas, e tenho habilidades em arte). Aos 4 anos eu lia e escrevia. Só que essa inteligência para uma parte, não facilitava a outra.

Entrei na escola aos 6 anos já alfabetizada. Minha mãe diz que ainda bem, porque se fosse esperar da escola, eu estaria analfabeta até hoje. 
A escola foi um inferno na minha vida. Eu não ficava na sala por muito tempo. Eu gritava, eu chorava eu deixava as professoras desesperadas, por causa do barulho. Sinal tocando, criança falando, gritando. Era horrível. Eu não socializava. Se tinha um grupo de crianças em uma ponta, eu estava na ponta oposta. Eu não brincava com eles, não conversava, não atendia a nenhum comando da professora, não respondia pelo nome, não fazia as atividades, eu só chorava e tentava sair da sala. Se mudava a professora, era outro caos, não aceitava a nova, não aceitava mudanças, ou que me tocassem. Eu não sabia que o que eu sentia era calor, frio, fome, vontade de ir ao banheiro, devido a dificuldade na interocepção ( sentir dentro do nosso corpo). Então o incômodo que eu não sabia contar virava em irritação e crise. Fazia xixi na roupa, porque precisava de alguém sempre me levando ao banheiro, já que eu não sentia quando a bexiga enchia. Na escola não tinha ninguém, então, fazia na roupa quando chegava no limite. As professoras sempre brigavam comigo por isso.

Com todos esses episódios ninguém sabia contornar, eles quase todo dia chamavam alguém de casa para me buscar. Não terminei o pré, minha mãe me tirou da escola pois não estava aprendendo nada, só sabiam me mandar para casa. Em casa eu aprendia mais. 
No ano seguinte eu voltei no primeiro ano. Foi o mesmo inferno, mesmas situações, me levavam e buscavam no meio do dia, mas dessa vez minha mãe não me tirou da escola. Assim eu fui segundo os anos. Eu não fazia atividades em sala, fazia tudo em casa. Eu já tinha 8, 10 anos e não relatava fatos. Fui crescendo e as professoras me chamavam de esquisita, as crianças riam de mim. Eu não tinha amigos.

Na pré adolescência as coisas pioraram porque veio o bullying mais intenso. Na infância eu sofria, mas eu não entendia muito o motivo. Para mim, eu era a normal e eles os diferentes. Mais tarde minha visão já começou a mudar. Diziam que eu saí da APAE porque eu me balançava, mexia com as mãos. Riam de mim, me empurravam, puxavam meu cabelo, beliscavam, perguntavam por que eu era esquisita, mas eu não sabia responder. Então eu comecei a ter noção de que eu era diferente, mas não sabia o motivo. Aos 13 anos eu achava que era louca, pois a única explicação que eu tinha, já que fisicamente eu era saudável. Comecei a pensar que seria internada em um hospício quando adulta.

Depois que terminei o ensino médio eu ficava só em casa desenhando e no computador. Não saía, não tinha amigos, não conversava. 
Em 2012 tentei faculdade, mas não consegui ficar, tentei curso técnico e não consegui. Em 2013 eu tentei novamente faculdade, mas também não consegui. Tentei duas vezes a distância e fi um fracasso. No total eu tentei 5 vezes um ensino superior sem sucesso. Passei um tempo me achando um lixo, com todas as minhas primas trabalhando, formadas e eu não conseguia nada.

Eu comecei a ir em uma psicóloga que levantou a suspeita de autismo, mas em contrapartida, disse que não tinha o que fazer comigo, eu já era adulta, teria que “me virar sozinha” com meus problemas. Isso acabou comigo. Pensei que não tinha esperança, eu era um caso perdido. 
Mudei de psicóloga e essa foi uma benção. Pediu para eu passar com um neuro ou psiquiatra, pois certamente eu sou autista e tinha como ela me ajudar, sim. Tanto que me ajuda até hoje. Voltei para a faculdade com diagnóstico, minha mãe conversou com a coordenadora do curso que foi outra benção e comecei a faculdade com adaptações as minhas necessidades. 
Todos me conheciam lá, sabiam do meu jeito, mas me acolheram. Fiz duas amigas que me ajudavam quando eu tinha crise, quando não entendo as coisas. Os professores me ajudavam em tudo. Foi uma inclusão muito boa. Terminei esse ano o curso de pedagogia, graças a Deus.

Eu sou autista leve, mas minha vida não foi nada leve. Eu escrevo muito bem, mas na oralidade não é tanto assim. Eu falo incansavelmente sobre meus hiperfocos, mas o resto dos assuntos eu quase nem falo. Não tenho total autonomia ainda. Preciso da minha mãe me ajudando. Me lembrando de tomar banho, de comer, de beber água. Me ajudando nas crises. Ainda não sei sair na rua e fazer compras ou pagar uma conta. Não consigo trabalhar ainda. Preciso de suporte. Mas vou vencendo aos poucos. Um pouco todo dia. Eu aprendi, a poucos anos, mas aprendi a me expressar através da escrita e faço bem. Dou algumas palestras nas escolas sobre autismo com minha amiga que é psicopedagoga. Eu gosto de ajudar. Minha oralidade está melhor com isso.


Meu propósito é ajudar para que as crianças não passem pelo que eu passei e que os adultos se entendam, por isso gosto de falar e escrever sobre autismo. Gostaria que um dia todos os autistas fossem ouvidos. Desde os não verbais por meio da comunicação alternativa, até os verbais falando por si e decidindo sua própria vida.

Sinais de autismo em adultos

Os critérios para diagnóstico de autismo em adultos são os mesmos das crianças. De acordo com o DSM V:

✅ Dificuldade na comunicação social
✅ Comportamentos repetitivos e alterações sensoriais (acontecendo de, em raros casos, não haver transtorno do processamento sensorial)

Esses variam de intensidade de acordo com cada indivíduo e devem estar presentes em algum grau desde a primeira infância.

✅ Dificuldade na comunicação social.

Podem ter:
Inclui desde os autistas que não verbalizam, até os que verbalizam muito bem, com vocabulário rico, mas que tem dificuldade em reconhecer expressões faciais, olhar nos olhos, entender sarcasmo, ironia, duplo sentido, figuras de linguagem, metáforas, piadas, indiretas, linguagem corporal ou qualquer tipo de informação não verbal ou com mais de um sentido na interpretação.
Podem não saber identificar e ou expressar seus sentimentos e emoções da mesma maneira que os não autistas. Tendo muitas vezes reações consideradas “desproporcionais” pela dificuldade em lidar com o que sentem. Também acontece de terem dificuldade de compreender o comportamento do outro e o que as pessoas esperam de si.
Dificuldade em iniciar ou manter uma conversa que não seja referente aos assuntos de interesse da pessoa (normalmente são poucos assuntos comparados a não autistas) e sinceridade em demasia.

Na parte de interação social: Desde os que falam pouco, não tem muito interesse em fazer amizades, quando fazem podem ter dificuldade em mantê-las, não gostam de sair de casa, estar junto as pessoas, são introvertidos, considerados tímidos, até os extrovertidos. Pessoas que falam muito, tentam fazer amizades, mas não conseguem porque abordam os outros de forma inadequada, falam sobre assuntos fora de contexto, se aproximam de forma considerada “estranha”, gostam de estar no meio de outros. Pessoas que muitos chamam de inconvenientes.

✅ Comportamentos repetitivos.

Podem ter:
Dificuldade com mudança de rotina, rituais, interesse muito forte em determinados assuntos (hiperfoco), gosto por repetições de palavras, frases ou sons (ecolalia), movimentos repetitivos, preferência por comer as mesmas comidas, usar as mesmas roupas, assistir os mesmos programas de TV, etc.

✅ Alterações sensoriais.

Podem ter:

Sensibilidade a sons, cores, cheiros, toques, seletividade alimentar, texturas de roupas ou falta de sensibilidade a esses, gostando de experimentar sensações como sons altos, músicas, texturas de alimentos, gostar de pressão no corpo, etc.

Referente a crises podem ter:
Em decorrência de exposição a muitos estímulos ou a dificuldade em lidar com seus sentimentos.

Crises explosivas de choro, grito, atitudes agressivas direcionadas a si ou aos outros. Ou crises implosivas. Sensação de cansaço extremo, sensação de que o corpo não responde, dificuldade para falar, para se locomover, aparente ausência, sono incontrolável, necessidade de se isolar, deitar e dormir.

✓A pessoa não precisa ter todos esses sinais, mas sinais significativos na área da comunicação social e comportamentos repetitivos que afetem sua vida diária e que estejam presentes desde a primeira infância.

✅ Dificuldades no dia a dia.

Muitos adultos no espectro podem enfrentar dificuldade em entrar ou permanecer em um curso superior, em um emprego, em relacionamentos afetivos. Dificuldade em manter a higiene pessoal, da casa, em frequentar ambientes lotados, se organizar, realizar algumas tarefas e aparentar ser alguém desleixado e preguiçoso.

✅ Pontos que devem se levar em conta na avaliação de autistas adultos:

Como se trata de adultos, a análise precisa ser diferente, visto que a experiência de vida de um adulto difere de uma criança. Um adulto tem uma “bagagem”, número de experiências de vida muito maior do que os pequenos. O amadurecimento nos trás ganho de habilidades que não tínhamos e que consequentemente uma criança não tem. Isso deve se considerar na avaliação.

Outros fatores:

✓Histórico familiar: Relação família e paciente;
✓Vida atual: Se é casado, se namora, se trabalha, estuda, idade;
✓Infância, adolescência;
✓Mulheres.

Acontece de muitos médicos ao receberem um possível autista adulto no consultório se atentem somente ao que estão vendo.
Se olha nos olhos, muitas vezes o médico não chega nem a perguntar nada da vida da pessoa, já descarta a hipótese. Se sorri, é simpático, a mesma coisa. Se é casado, trabalha, estuda ou tem filhos, descartado porque autistas “não são capazes disso”. Se não apresenta movimentos repetitivos na frente dele, não pode ser autista.

✓Histórico familiar: Não raras as vezes da família reprimir o comportamento da criança por achar entranho, errado, feio. Crianças que apanharam por se balançar, por repetir muito as palavras ou assuntos, por não olhar nos olhos ou por ser diferente.
Uma criança que recebe essa informação de que é errado se comportar assim crescerá um adulto que reprime seus comportamentos autistícos. Então, obviamente que na frente de outras pessoas ela não se balançará, se forçará a olhar nos olhos e a se comportar da melhor forma “neurotípica” possível.
Muitos autistas dizem que só se sentem seguros para fazer o que precisam, serem eles mesmos, em casa, dentro do quarto fechado.

✓Vida atual: Pessoas mais velhas, 30, mais de 40 anos tem um conhecimento natural de vida maior, sendo assim, não se pode esperar que respondam o mesmo que uma criança autista responderia ou que se comportem como tal.
Os casados, com filhos, que trabalham, estudam também adquiriram uma experiência maior e podem saber lidar com seus comportamentos. Muitas vezes desenvolvem de forma sofrida, habilidades de independência, autonomia, aprendem a entender algumas piadas e significado de metáforas por exemplo. Fazem isso observando as pessoas, já que não tiveram diagnóstico nem suporte.

✓Antes de tirar conclusões precipitadas diante do adulto que está ali, procurar saber como foi sua infância e adolescência.

✓Mulheres: Há diversos estudos que comprovam que o autismo no sexo feminino pode se manifestar de forma diferente do masculino. Na maioria da vezes de forma mais sutil.
Mulheres autistas tendem a ser mais sociáveis que os homens, com hiperfoco mais comum, movimentos repetitivos mais discretos, tem maior habilidade de copiar comportamentos e criar uma “máscara” social para serem aceitos pelas pessoas. Fingir comportamentos que não lhes é natural para não serem rejeitadas. Com isso podem desenvolver depressão, ansiedade, etc, em decorrência da pressão constante.

✅ Profissionais indicados:

Neurologista ou psiquiatra de preferência especialista em autismo. Que tenha diagnosticados outros autistas adultos se possível.

O diagnóstico de TEA em adultos precisa ser bem avaliado e não descartado em uma consulta de 15 min porque o indivíduo fez algo que o estereótipo impede.
O profissional precisa levar em conta todo o histórico de vida do indivíduo, todos os detalhes para tirar uma conclusão e isso não se faz em 15 min porque a pessoa olha nos olhos, ou porque é casada.

É necessário conhecer o autismo para entender.

✓Referências:

https://revistacrescer.globo.com/Voce-precisa-saber/noticia/2019/05/autismo-pesquisadores-defendem-necessidade-de-metodos-diferentes-para-diagnosticar-meninas.html?fbclid=IwAR3uIBwgQTmrX-fCn2noxWwtWiWggDqtBa6Yg7kXQhGZk7Vivjz9J5Hc1LE

DSM V

Autista e ator: Um pouquinho da vida de Anthony Hopkins

Nunca é tarde para receber um diagnóstico.

O aclamado ator Anthony Hopkins, conhecido principalmente pela sua atuação como Hannibal Lecter no filme “O silêncio dos inocentes”, comentou em três entrevistas dadas a Franz Lidz em 2002, Bruce Fessier em janeiro de 2017 e Louise Gannon em junho de 2017, que foi diagnosticado autista na terceira idade.

Aqui esta um trecho. A fonte do site que publicou a reportagem em ingles é essa: http://www.psychologymatters.asia/article/412/anthony-hopkins-and-the-suffering-caused–by-unrecognized-aspergers-condition.html

❇️OBS: Eu não sei inglês, então se a tradução não está correta a culpa é do Google..

“Bem, eu fui diagnosticado com a Asperger. Muitas pessoas com Asperger são altamente funcionais, mas inconsistentes. Eles têm tiques nervosos, hábitos nervosos, pensamento inconsistentemente obsessivo.

Fessier então perguntou: Você percebeu desde cedo que seu cérebro funcionava de maneira mais propícia à atuação e à arte do que talvez aos negócios?

Hopkins respondeu: “Sim, acho que sim. Eu nem sabia que Asperger existia. Mas, me tornei um ator com uma abordagem bastante trabalhadora. Meu pai era padeiro. Mas, eu nunca tinha certeza do que diabos eu era. Isso levou a anos de profunda insegurança e curiosidade. Eu nunca consegui me estabelecer em lugar algum. Fiquei perturbado e causou problemas, principalmente nos primeiros anos. Amadureci um pouco, por isso estou em muito mais paz comigo mesmo. “

Lousie Gannon escreveu em seu artigo: Ele é, diz ele mesmo, “muito solitário. … eu não vou a festas, não tenho muitos amigos …”

Gannon então perguntou a Hopkins se ele acha que Asperger o ajudou como ator. Ele acena com a cabeça. “Definitivamente, olho as pessoas de maneira diferente . Gosto de desconstruir, separar um personagem, descobrir o que as faz funcionar e minha opinião não será a mesma que todos os outros”.

Reconhecido por sua capacidade de lembrar frases, Hopkins mantém sua memória flexível aprendendo coisas de cor como poesia e Shakespeare. No Amistad de Steven Spielberg, Hopkins surpreendeu a tripulação com a memorização de um discurso de sete páginas no tribunal, fazendo-o de uma só vez.”

Diagnóstico não é rótulo, ele liberta. É muito importante que saibamos quem somos.

Autismo e agressividade

Momentos de autoagressão ou agressividade em geral, pode ser comum em autistas. Vários pais me perguntam sobre isso.

Se dá devido a vários fatores que variam entre cada individuo, mas normalmente as explosões são por causa da dificuldade com o controle inibitório. Muitos de nós não conseguimos lidar com as emoções, com a frustação, a mistura de sentimentos e “controlar” como os típicos fazem. Isso pode resultar em comportamentos gressivos com os outros ou conosco. Eu tenho crises de agressividade quando me sobrecarrego com estímulos internos ou externos.

Outro fator são as alterações sensoriais. Por exemplo, no meu caso, desde pequena me belisco, me arranho, machuco minhas mãos, ou outras partes do corpo quando estou sobrecarregada, ou até mesmo para prestar atenção. Isso mesmo, prestar atenção.

Notei recentemente no processo de me conhecer, que sou hipossensível na parte tátil, isso me faz buscar por estímulos.
Quando eu estava assistindo as aulas da faculdade, eu mordia os dedos, ou eu me beliscava. Parecia que aquele estímulo me ajudava a prestar atenção.
Quando estou assistindo filme posso fazer o mesmo, ou machucar minha testa. É algo que quando noto, já fiz. As vezes nem noto, minha mãe ou tia que me avisam.

Tenho um machucado recente no meu queixo que não sei bem como aconteceu. Eu estava usando a internet e quando olhei, tinha sangue em uma das minhas unhas. Fui olhar no espelho e havia um tipo de buraco no meu queixo da pele que eu fui arranhando. Não sei como eu fiz isso, mas eu fiz e não senti a dor. Agora estou tentando deixar cicatrizar.

Eu gosto muito de passar as unhas na minha pele, de sentir meu corpo porque há momentos que parece que não sinto e é uma sensação horrível. A questão, é que essa necessidade de estímulo pode causar ferimentos e isso não é bom. Eu tenho consciência de que preciso substituir, mas nem sempre é fácil por em prática.

Eu sempre saio com uma cobrinha de silicone que enrolo entre os meus dedos ou balanço bem forte. A pressão que ela faz quando a enrolo nas minhas mãos ou quando bato com ela na minha pele, substitui na maioria das vezes as mordidas, arranhões ou beliscões.

Eu a levava na faculdade e ajudou bastante. Porém, infelizmente, apesar de ajudar, não soluciona por completo porque ainda acontece de quando noto já me machuquei, como foi com o queixo.

No caso de autistas não verbais, autoagressão ou agressão a outros pode acontecer por esses dois motivos acima e com o acréscimo de uma maior dificuldade na comunicação. Autistas que não oralizam podem achar a solução para serem atendidos quando se mordem, ou quando batem com a cabeça. Por isso o uso da comunicação alternativa é fundamental.
PECS, língua de sinais, aplicativos de computador, de celular, qualquer coisa que de oportunidade do indivíduo se expressar de outra forma.

Se for sensorial, stim toys ou qualquer objeto que tenha um objetivo. Como diz minha mãe, algo que ocupe as mãos e que de preferência, forneça um estímulo aproximado do que ele recebe quando se agride. Exemplo, se bate a cabeça porque gosta do impacto, da pressão, pode substituir por faixas de cabelo. Eu usava o tempo todo quando criança. Uma mãe testou e deu certo com a bebê dela que bate na cabeça.

Outra alternativa são os abafadores, aqueles externos, de obra. Além de abafar o som, ainda fazem pressão. Gorros, toucas, bonés também podem ajudar em alguns casos. Em crises, apertar com as mãos a cabeça do autista se ele deixar. No meu caso, minha tia faz e ajuda.

Se gosta de se arranhar, se beliscar, buchas naturais podem ajudar ou um Stim toy próprio para isso.
Uma colega autista diz que a mãe deita em cima dela quando ela esta sobrecarregada. Eu nunca tentei isso, mas gostaria muito porque também adoro pressão. Me acalma.

Se é o caso de mordida, pode ser por estímulo na parte oral, nesse caso, mordedores sensoriais são bons. Eu tenho um e as vezes uso.

O fato é que nenhum de nós faz por fazer. Cada um tem seu motivo. Só é preciso perceber qual o motivo do autista que você convive para poder ajudar. Em todo caso, vai testando várias coisas.

Regressão de comportamento no adolescente e adulto autista

Foto por Daria Shevtsova em Pexels.com

Eu postei recentemente sobre o chamado autismo regressivo que acontece na primeira infância e alguns pais começaram a relatar que os filhos autistas depois de adolescentes ou adultos apresentaram algum tipo de regressão. Exemplo o autista que era considerado “leve”, passou a ser considerado “moderado” após uma idade.

Isso não é o autismo regressivo. Essas perdas de habilidades depois de adolescentes ou adultos podem acontecer devido a diversos fatores, alguns coexistem com o autismo.

Não faz muito tempo de eu publicar um post sobre a “piora” do autismo na vida adulta. Quem se interessar pode dar uma lida, mas é basicamente o que eu vou escrever agora. Também tem um vídeo no Canal Vitamina Maluca que a autista Vanessa trata desse tema.

Enquanto crianças, nossas demandas sociais, exigências são menores. Conforme crescemos, elas aumentam e nos sobrecarregam cada vez mais, afinal o que é esperado de um adulto vai muito além do esperado de uma criança. Então um adulto ou adolescente nível 1 de suporte na infância, pode parecer que regride com o passar do tempo devido a dificuldade que está tendo em se adaptar com a nova fase da vida.

Outro motivo são as condições coexistentes que desenvolvemos. Transtornos de ansiedade, depressão, epilepsia, TOC, dentre outras coisas afetam de forma muito significativa a nossa vida.

O autismo, a depressão, ansiedade, TDAH, vem com algo que se chama disfunção executiva (também já publiquei sobre isso). Essa disfunção nos atrapalha nas tomadas de decisões, na realização do passo a passo de tarefas básicas, priorização, alternar entre uma atividade e outra, controle de impulsos, dentre muitas outras coisas.

As vezes, devido a dificuldade com as funções executivas, esquecemos como fazer as coisas que já sabíamos e fazíamos com frequência. 
Por exemplo, hoje eu me esqueci de como colocar plastico filme no prato com a carne do almoço que eu como a tarde. Eu já fiz isso muitas vezes, mas hoje eu simplesmente esqueci de como fazer.

Outro fator é que as vezes, por falta de estímulo, de terapias, de auxílio com a autonomia devido ao pensamento de que “autismo leve” é autismo fácil e como eu já ouvi, dá para “se virar sozinho”, nós acabamos regredindo mesmo.

É muito importante observar a pessoa com que você convive porque cada caso é um caso.

Autismo e independência.

É comum que alguns pais tendam a fazer tudo pelos filhos e não se dêem conta de as crianças já chagaram na idade de aprender a fazer sozinhos.
Quando se fala de pais de pessoas com algum tipo de deficiência, se torna mais comum ainda a superproteção. Entretanto, sabemos que ninguém vive para sempre e um dia será necessário ter algum nível de independência para poder sobreviver.

Minha mãe, minha tia e minha avó me ensinaram várias coisas desde que eu adquiri uma certa idade. Hoje em dia eu sei lavar a louça, varrer e passar pano na casa, tirar pó, jogar água no quintal, limpar o lugar que os cachorros ficam, alimentá-los. Essas são minhas tarefas domésticas.

Então, como eu vi na postagem de uma outra autista, as pessoas dizem “Você é capaz, você não aprende porque não se interessa”, “Você não aprende porque não quer”.
Observem como não é simples assim.

As vezes acontece de eu esquecer do passo a passo de coisas que eu já fiz muitas outras vezes. Como ontem eu esqueci como colocava o plástico filme no prato de carne. Eu não tenho completa certeza de por que isso ocorre, mas eu creio ser devido a disfunção executiva.

Eu consigo arrumar a casa, mas sempre precisa ficar alguém me mandando fazer porque esqueço, vou procrastinando. E não é porque eu “fico esperando alguém mandar, porque sou preguiçosa”. Eu realmente me distraio com alguma coisa e fico naquilo muito tempo. Quando minha tia vai ver, eu não fiz nem metade das miinhas tarefas. Ela fica irritada.
Eu tenho consciência desse problema, mas é muito fácil eu me distrair e esquecer do que eu tenho que fazer por causa de outra atividade.

Várias outras coisas também ainda não tenho independência para fazer sozinha. Exemplo, cozinhar porque eu odeio o barulho das panelas, o cheiro de algumas comidas sendo cozidas. Fazer compras, porque me perco no passo a passo e em meio aos estimulos fica mais difícil. Pagar contas, porque tenho dificuldade em lidar com dinheiro, dificuldade em sair na rua sozinha, visto que eu me perco facilmente e o Google Maps não funciona sem crédito. Também tenho dificuldade em me comunicar com as pessoas, me fazer entender e entender o que elas me dizem.

Eu também posso esquecer de me alimentar, de beber água, de ir ao banheiro, de lavar a cabeça. Os não autistas podem até achar estranho alguém esquecer dessas coisas básicas, mas é real, acontece frequentemente com muitos de nós.

Nem sempre é falta dos pais ensinar, mas muitas vezes somos mais lentos para aprender comparado a outras pessoas. Isso NÃO significa que nunca aprenderemos, mas que nosso tempo é diferente.

Então, nunca digam que um autista não faz, não aprende porque não se interessa, porque não quer. É muito difícil ter independência e cada coisinha que para vocês é mínima, para nós é um avanço imenso. Parem de julgar as pessoas.

Mapas Mentais no Autista

O que são os mapas mentais do autista?

Uma pessoa pediu para que eu publicasse algo referente aos mapas mentais no autista. Eu vou tentar fazer com base na minha experiência, na forma como a minha mente funciona. Pode ser que alguns autistas se identifiquem, outros não. Pode acontecer de um mapa mental funcionar de outra maneira para outras pessoas. Não há uma verdade absoluta, pois somos todos diferentes.


Os mapas mentais, ou o que alguns também chamam de rituais, são muito parecidos com a rotina e comuns no TEA. Ambos tem a função principal de trazer segurança, e auxiliar em nossa organização (de preferência que sejam imutáveis, embora saibamos que infelizmente, isso não é 100% possível). 
Em um mundo a onde nada é estável, a nossa mente precisa de algo que siga um padrão. Algo que nos conforte e alivie a ansiedade. Encontramos essa estabilidade na rotina e nos mapas mentais. 


Pra facilitar, um exemplo do meu cotidiano. Eu não trabalho fora, por isso aprendi a auxiliar em alguns afazeres domésticos. Ao realizar essas tarefas, eu utilizo os mapas mentais que construí. Ao lavar a louça, lavo primeiro os talheres, depois os pratos, em seguida as tampas, logo depois os recipientes de plástico, as penelas e por último as canecas de alumínio. Ninguém me ensinou nessa ordem, só me ensinaram como lavar. A ordem foi eu que criei, a fim de organizar minha mente. Em uma pia cheinha de louças, eu não consigo executar a tarefa se eu simplesmente for pegando qualquer coisa e lavando. Eu me perco se não seguir o mapa. Outro exemplo, quando arrumo a casa. Primeiro limpo o quintal, depois o banheiro (se tiver alguém no banheiro, eu não vou fazer outra coisa até a pessoa sair, eu espero pra poder continuar) e por último varro a casa, começando sempre pela sala. Se por acaso eu tenha que fazer diferente, esse padrão “se quebra” e eu acabo me perdendo. Eu não sei o que eu faço, como eu faço, me desorganizo, fico estressada, isso se não acabar em crise. 


Muitas pessoas não entendem e as vezes, querem que façamos diferente pra ser mais rápido, mais prático. As vezes pensam que eu perco tempo esperando o indivíduo sair do banheiro pra poder limpar, sendo que poderia estar adiantando outra coisa. Mas se for diferente, tenho dificuldade em fazer. Para isso, tenho que criar um novo mapa mental, com as coisas em outra ordem e assim seguir. É por isso que é difícil cada dia fazer de um jeito adequado a situação, como os outros esperam. Por exemplo, hoje tem gente no banheiro, então hoje eu varro a casa primeiro e depois volto no banheiro. Amanhã se não tiver ninguém lá eu continuo com a minha ordem. Mas pra isso eu vou ter que me desorganizar pra fazer diferente e depois no outro dia reorganizar pra voltar ao que era??? É confundir a mente. Dificulta e pode nos deixar mais lentos, porque acomodar no cérebro todas as novas informações e padrões não é simples e leva um tempo.


Os mapas mentais não são somente para realização dessas tarefas citadas, mas para tudo, inclusive para alimentação. Pessoas que só comem determinados alimentos em determinados lugares, de determinadas formas, também podem fazer isso para se organizar. Com mudança no ambiente é a mesma coisa. “Só porque um sofá está diferente de como estava, meu filho faz um escândalo”. Esse “escândalo” é porque ele se desorganiza. Precisa de tempo pra colocar a nova informação do sofá, no mapa mental dele e se acostumar a ela. As vezes, dependendo da mudança, nem o ambiente ele reconhece. Sei por experiência própria. Novas informações, minimas que possam parecer, precisam de tempo pra que nos habituemos a elas. Precisamos ser avisados com antecedência. Precisam conversar conosco. Talvez, mostrar uma foto de como ficou o ambiente antes da criança entrar nele, seja uma boa ideia. 


Muitas vezes, esses nossos rituais podem ser confundidos com TOC (Transtorno obsessivo compulsivo). Mas no TOC, normalmente a pessoa tem pensamentos negativos invasivos, se não realizar a tarefa. Se não limpar o quintal primeiro, coisas ruins vão acontecer, algo do tipo. E/ou ela não gosta desses rituais. Muitas pessoas com o trastorno relatam que querem parar, mas não conseguem, porque a mente delas “não deixa”. Ficam lembrando constantemente que determinada coisa deve ser realizada, mesmo que não faça sentido. Nada impede que o autista tenha TOC como algo coexistente, mas quando o comportamento é devido somente ao autismo, nós o fazemos porque precisamos de organização mental. Algo que nos ajude a executar tarefas de forma autônoma sem nos perdermos no meio delas. 
Quanto a como mudar essa ordem das coisas na mente da pessoa autista, eu confesso que também não sei nem como, nem acho que é necessário, visto que estamos fazendo de uma forma que é mais simples para nós. Aqui em casa acho que não conseguiram ou nem tentaram fazer isso comigo. Eu organizo minha mente, então não sei como outra pessoa poderia fazer isso por mim de forma diferente e obtendo sucesso. 


O que é fundamental é que a maneira com que fazemos as coisas, seja respeitada. Quando aprendemos a realizar tarefas sozinhos, deixem que a façamos da forma que sejam mais fácil pra nós e não da maneira mais fácil pra vocês.

Autismo e Sexualidade

Algumas perguntas do tipo: “Mas autista namora?” “Autista casa e tem filhos”, sempre aparecem. É bom deixar claro que autistas são seres humanos, então, sim!
Muitos desejam encontrar um parceiro (a) como qualquer pessoa. Alguns almejam constituir família e ter filhos.

Todos sabem que relacionamentos não são fáceis para absolutamente ninguém. Conviver e entender o ser humano é difícil. Quando falamos de relações que envolvem o autista, a dificuldade é muito maior, mas não impossível.

Primeiro, é importante que a pessoa neurodiversa encontre alguém que a aceite com todas as suas particularidades. Nada de tentar mudar algo não prejudicial para agradar o outro.

Nós somos tão seres humanos quanto os não autistas, mas temos idiossincrasias muito especificas que precisam ser compreendidas e respeitadas. Do contrário pode se transformar em um relacionamento abusivo e isso não pode ser tolerado. Em contrapartida, também precisamos aprender a aceitar e conviver com as diferenças do outro para que as coisas dêem certo.

Eu vejo muito casos de pais tentando impedir que os filhos se relacionem amorosamente. E não digo aqui me referindo aos autistas não verbais, mas aos verbais. 
Mães que negam o direito do filho (a) conversar com um pretendente, sair para conhecer pessoas, iniciar um namoro por medo da pessoa se decepcionar, de não dar certo. “Meu filho não é capaz”. Como você sabe que ele não é capaz se nem ao menos deixa tentar? E se não der certo, ele aprenderá a lidar com a situação.

A família precisa entender que autistas crescem e as necessidades mudam de acordo com esse crescimento, como qualquer outra pessoa. 
Neurodiversos podem querer beijar e ter uma vida sexualmente ativa. O autismo não impede de desejar o que outros adolescentes e adultos desejam. Tentar se iludir pensando que o filho será eternamente uma criança protegido pelos pais, é um erro que atrapalha muito a independência do indivíduo.

Há vários autistas que são a prova disso. São casados, namoram, tem filhos e levam uma vida boa de acordo com suas particularidades.

Por outro lado, há os que não conseguem ou não querem estabelecer uma relação amorosa com alguém. Não querem namorar, casar, ou ter filhos. Não querem relação sexual ou coisas do tipo e está tudo bem. Cada um deve fazer o que for melhor para si.

Com esses o problema normalmente é a pressão social e dos pais para levar uma vida “típica”. “Você não pode ficar sozinho, quem vai cuidar de você depois que eu morrer?”, “Você precisa encontrar alguém para constituir família”. 
Isso também nos atrapalha. Meu parceiro não vai ser meu pai ou minha mãe, vai ser meu parceiro. Ele não tem a obrigação de cuidar de mim, e se eu tiver filhos também não. Quem garante que me ajudarão? Quem garante que não me darão mais estresse do que se eu estivesse sozinha? Não tem como prever esse tipo de coisa. É muito mais fácil eu aprender a cuidar de mim ou pedir ajuda a outras pessoas se necessário, do que ter que cuidar de uma família.

No meu caso por exemplo, eu não consigo estabelecer um relacionamento amoroso. Já tive dois namorados, um aos 23 durando 9 meses e outro a pouco tempo, aos 26 anos, durando 1 mês. 
Ambos são ótimas pessoas, mas a questão foi comigo mesmo. Não consigo me habituar a dividir minha vida com outra pessoa tão intimamente. Mudar toda minha rotina por causa de alguém. Gosto de ficar sozinha, gosto do meu espaço, das minhas coisas. Passo o dia inteiro no meu quarto. Minha mãe sempre diz que mesmo que eu fique 3 horas na sala com ela eu fico sem conversar, imagina em um namoro que se espera interação e atenção constante? Desgasta. Em 1 mês eu já estava ficando desgastada. Era como se a minha “bateria” não durasse mais como antes. Eu sentia que tinha perdido a minha vida, que estava sendo consumida. E nada disso significava que eu não gostasse da pessoa. Eu gostava e gosto muito, só que eu tenho uma forma diferente de me relacionar.

Fora a interação, ainda havia mais o problema da questão sensorial. Não suporto beijo, toque direto na pele, carícias e nem pensar em relação sexual. O relacionamento virava em abraço bem apertado por cima da roupa e beijo selinho.
Obviamente que uma relação não se sustenta somente com isso, então melhor cada um seguir sua vida.

A questão é que nem todos os autistas precisam de um namorado e nem todos precisam ficar sozinhos. Existem inúmeros tipos de neurodiversos, assim como inúmeros tipos de neurotípicos. Cada um precisa viver de acordo com seu desejo e ser respeitado.

Hiperfoco no autismo

Os interesses especiais são um ou mais assuntos que o autista gosta muito. Alguns profissionais da saúde costumam chamar de “interesses restritos”, porém varias pessoas da comunidade autista não gostam desse termo, visto que nossos interesses não são restritos, podem mudar.

Um assunto as vezes nos leva a pesquisar outro e acabamos nos interessando por esse outro. Podemos passar por vários durante a vida, ou ter o mesmo a vida inteira. Ter um ou ter quatro, cinco. Passar anos com o mesmo ou apenas dias, semanas. Ter um tema que era de interesse na infância e voltar nele anos depois. 
Tudo depende muito de cada indivíduo. Não existe regra.

Esses interesses são mais conhecidos como hiperfoco. Hiperfoco (como o próprio nome já diz) porque quando estamos pesquisando ou fazendo algo relacionado a ele, normalmente estamos muito concentrados. Muito mais do que os neurotípicos. Eu por exemplo não ouço quando falam comigo, nem percebo quando entram ou saem do mesmo cômodo. Posso esquecer de comer, de beber água, ir ao banheiro, tomar banho, dormir. É extremamente intenso. 

Eu escolhi essa imagem, primeiramente porque o meu primeiro hiperfoco foi sobre dinossauros e segundo porque os ceratopsídeos são minha segunda família favorita de dinossauros. 
Eu tinha três anos quando ganhei meu primeiro livro referente. Me apaixonei por esses gigantes. Aprendi a desenhar, desenhava eles, olhava o livro várias vezes no dia, fazia listas das espécies, assistia Jurassic Park muitas e muitas vezes. 
O que lamento é que nessa época (mais de 20 anos atrás), não havia tantas coisas sobre como há hoje. Nem internet tínhamos até eu ter uma certa idade. Não pude aproveitar os brinquedos maravilhosos e realistas que vemos atualmente. 
Esse hiperfoco durou anos. Foi até minha adolescência. Até os 13 anos mais ou menos. Eu dizia que seria paleontóloga. 

Certa vez, quando eu tinha em torno de 8,9 anos, decidi que iria abrir um buraco no nosso quintal para procurar um fóssil. Eu passava dias o dia inteiro no quintal cavocando cimento com qualquer coisa que encontrasse, procurando os fósseis. 
De tanto que eu insisti tirei um pedacinho daquele cimento grosso e enxerguei algo bem branquinho, só aparecia a pontinha. Acreditei realmente que era um osso de dinossauro. Trabalhei mais duro ainda. Dormia e acordava pensando nisso. Continuava raspando cimento até que consegui soltar ele um pouco e para minha frustação, era um pedacinho de cano. 

Foi decepcionante. Minha mãe explicava que não tinha como ser fóssil por causa da profundidade, mas eu estava muito indignada. Mesmo depois disso não deixei meu interesse de lado. Não. Minha vida era imaginar dinossauros, desenhar, ler, assistir e escrever lista de dados sobre eles. 

Nesse meio tempo vieram interesses mais curtos, digamos assim. Tive hiperfoco sobre animais da África devido a animação O Rei Leão. Animais do Canadá, mais precisamente os ursos devido ao filme Irmão Urso. Mapas, porque eu procurava os países e cidades que os dinossauros viviam então acabei gostando de olhar mapas. Os mapas me levaram a ao Havaí então desenvolvi um hiperfoco em Lilo & Stitch que eu assistia sagradamente todas as noites, e nas músicas havaianas. Gravei no celular e aprendi a letra de todas e as falas do filme inteiro eu sei até hoje. 
Na adolescência já deixando os dinossauros de lado, comecei a me interessar fortemente sobre o Egito Antigo, Nifertiti. Em seguida vieram os filmes e atores. Fazia listas de atores e filmes que fizeram. Mais tarde a série The Big Bang Theory (que eu já fiz um post explicando o motivo e já dura pouco mais de 6 anos). Por último, depois do meu diagnóstico, hiperfoco em autismo. 

Atualmente estou com esses dois (Autismo e The Big Bang Theory) e talvez com uma recaída em um terceiro, o meu primeiro hiperfoco que foi em dinossauros. 

Eu já sou adulta, mas amo coisas consideradas infantis, principalmente se for do que eu gosto, como bonecos da série ou de dinos. O fato problemático não é esse, “gostar de bonecos”, mas o de que apesar de adulta, ainda não sou financeiramente independente para sustentar meus hiperfocos e na maioria das vezes eles nos dão gastos. 

De qualquer forma, os interesses do autista não precisam ser especificamente um assunto que ele pesquise, mas algo como pedras, objetos como pregadores de roupa, coisas que o indivíduo goste muito e as vezes até hiperfoque olhando para elas. 

Nossos interesses fazem parte do nosso mundo. São importantes. Eles nos tranquilizam, confortam e podem até se tornar uma profissão futuramente. Mesmo que não se torne, é algo que nos faz bem na maioria das vezes. Se faz bem, não deve ser retirado. 

Apesar de serem visto como um problema para os professores, quando o aluno só quer saber de um assunto, isso pode ser driblado sem necessidade de retirar (acreditem, não é tarefa fácil retirar um interesse de um autista). O professor pode usar dele para ensinar vários conteúdos. É muito proveitoso. 
No meu caso por exemplo, talvez, se tivessem pesquisado sobe o que eu gostava, minha vida escolar não teria sido o terror que foi. Eu poderia ter aprendido sobre países usando dinossauros (como de fato eu aprendi, mas não na escola), matemática, história, etc. 

Eu amo meus interesses. São realmente especiais pra mim. 

Autismo Regressivo

O que é o chamado autismo regressivo?

Bom, sabemos que as crianças pequenas, tem um grande número de neurônios e sinapses (ligações entre os neurônios que conduzem as informações em nossos cérebros). Esse número é muito maior relacionado ao de um adulto.

Devido a esse excesso, o cérebro necessita manter os recursos, as informações que são usadas com frequência e descartam as não mais usadas para dar espaço a outros que vão surgindo. Esse descarte e reajuste dos neurônios é chamado de poda neural.
Pequenas podas acontecem muitas vezes ao longo da vida, mas as mais importantes são as que o orrem até os 3 anos de idade e na adolescência.

No caso do autismo regressivo, acontece uma “falha” nesse processo e a criança acaba perdendo habilidades que apresentava antes e não desenvolvendo outras.
Essa falha na poda que se relaciona com os casos de autismo é a que acontece até os 3 anos de idade. As da adolescência podem se relacionar com casos de outras condições, como esquizofrenia, por exemplo, não de autismo.

Com isso, muitos pais começam a procurar fatores externos para explicar o motivo de uma criança aparentemente “típica”, que dava tchau, jogava beijo, atendia pelo nome, falava, parar de fazer tudo isso e apresentar sinais de autismo depois de uma certa idade.
Então dizem que foi depois que tomou vacina (porque coincide com a idade), depois que ficou doente (crianças nessa idade tem mais probabilidade de ficarem doentes), porque foi introduzido algo novo na alimentação, porque nasceu irmão, os pais se separaram, etc.

Nada disso tem relação. São apenas coincidência. Se não tivesse acontecido nenhuma dessas coisas, a criança ainda regrediria porque isso já estava no seu DNA. Ela sempre foi autista, acontece que muitas vezes os sinais eram sutis e só depois ficaram evidentes.

Vários pais de crianças diagnosticadas com autismo regressivo relatam que depois de um tempo, depois de pensarem bem, relembrarem, notam que a criança já apresentava sinais como, não olhar nos olhos durante a mamada, ter dificuldade com mudanças, só que nada tão evidente, porque em contrapartida, ela falava, ela apontava, brincava com os outros.

Também é comum, se você questionar os pais por exemplo: “Seu filho dava tchau? Quantas vezes ele fazia isso?”. E os pais responderem que fez duas, três vezes na vida. Jogou beijo, apontou, poucas vezes comparado a uma criança típica. Então já dava sinais, só que quase imperceptíveis.

Atualmente, segundo o DSM V não existe mais esse termo “autismo regressivo”. É tudo TEA separados por níveis de suporte. No nosso CID 10 ainda há essa nomenclatura e as crianças ainda recebem esse diagnóstico, porém, a partir de 2022, com o CID 11 deixará de existir, assim como a Síndrome de Asperger e a classificação será: autistas com ou sem deficiência intelectual, verbais ou não verbais.

O mais importante de tudo é trabalhar com a criança, adolescente, adulto para o ganho de novas habilidades e sempre acreditar que ele é capaz.

Transtorno do processamento sensorial

Resumidamente, o transtorno do processamento sensorial (TPS) é uma alteração na forma com que o cérebro recebe informações através dos sentidos: visão, audição, tato, olfato, paladar, propriocepção, sistema vestibular e interocepção. Ao contrário do que aprendemos na escola, o ser humano não possui apenas 5 sentidos, mas sim 8. Os três não tão conhecidos são: o sistema vestibular, que se localiza no ouvido, e é responsável pelo nosso equilíbrio e percepção dos movimentos do nosso corpo. A propriocepção, que é responsável pelo reconhecimento do corpo no espaço. Sentir onde estão nossos membros sem precisar olhar. Também tem a função de manter o equilíbrio e o controle da musculatura, a quantidade de força que empregamos para realizar determinadas atividades. E a interocepção, responsável pela sensação de frio, calor, fome, uso do banheiro. Tudo que está relacionado a parte interna do nosso corpo.
O TPS é um diagnóstico separado do autismo. Isso significa que pessoas não autistas também podem apresentar. Porém, é mais comum em indivíduos com TEA e com TDAH. Pessoas com o transtorno podem ser hipersensíveis (evitam certos estímulos) e hipossensíveis (buscam por determinados estímulos). É bom lembrar que ninguém é 100% hiper ou hipo. Há uma mistura dos dois. Exemplo: indivíduos hipersensíveis na audição, mas hipossensíveis no tato.

Muitos comportamentos no autismo podem ser devido a parte sensorial, principalmente os considerados negativos. Pessoas que se auto-agridem, ou agridem os demais, podem fazer por dificuldade na comunicação, principalmente autistas não verbais, pois essa foi a forma que encontraram para se comunicar. Ou, pode ser devido a dificuldade sensoriais.
Aqueles que tem o hábito de lamber as coisas, morder. Se mordem e mordem os outros. Ou ainda, ficam mastigando a gola da camiseta, ou a manga da blusa, podem estar buscando estímulo na parte oral. Não vai adiantar ficar dizendo que não pode fazer, porque é uma necessidade que sentem. Aliás, uma observação sobre a palavra não. Várias pessoas autistas tem resistência extrema a essa palavra. Crianças neurotípicas normalmente possuem essa resistência porque ainda não amadureceram, mas no autista, ela pode se estender além do tempo considerado “normal” para os demais. As vezes, entram em crise quando a ouvem. Isso pode acontecer, devido a “quebra” brusca dos nossos mapas mentais. Pra toda atividade, criamos mapas mentais a fim de nos organizarmos na hora da realização. O não, desconstrói esse mapa, é como um baque. “O que eu faço agora se não posso fazer isso?” A pessoa se perde e fica insegura. Pode ser sugerido que ao invés de dizer: “Não morda a gola da camisa”, se diga “Por que você não morde isso aqui? É bem melhor”. Se observarmos, a segunda opção estará oferecendo uma alternativa para a pessoa inserir no seu mapa mental. A medida que ela for amadurecendo, no seu tempo, pode passar a saber lidar melhor com essa palavra.
Hoje em dia, existem lojas com brinquedos sensoriais, e dentre eles está mordedores, que pode ser usados como um colar e levado pra todo lugar. O indivíduo será orientado de que quando sentir vontade de morder ou lamber, ele pode fazer isso com o brinquedo. Esses brinquedos também pode ser utilizado por adultos, pois não possuem uma aparência infantil.

Autistas que gostam de balançar, girar, ou ver objetos que giram, estão buscando por estímulos visuais, pois são hipossensíveis no sentido vestibular. Por isso muitos gostam de olhar o ventilador, ou a máquina de lavar funcionando. Em contrapartida, há outros que não suportam brincar em balanços, ou ver algo rodando, porque são hipersensíveis nesse sistema, logo, evitam o estímulo. Por esse motivo, não se pode generalizar alguns comportamentos no TEA, como “Todo autista ama ventilador”, depende do sensorial.

Há pessoas com TEA que gostam muito de pular, bater, bater com as mãos em móveis, até mesmo se bater e bater em terceiros. Elas podem estar buscando sentir o corpo, e o impacto se torna prazeroso. Quanto a dar tapas nos móveis ou paredes, eu não vejo problema. Faço isso em algumas vezes que estou necessitando sentir o meu corpo ( a não ser que esteja machucando a mão, aí é diferente). Já se bater, ou fazer isso com os outros, passa a ser algo pra intervir. O adulto, ou criança podem ser direcionados, para quando quiserem realizar esse movimento, fazer com uma bola. Quicar a bola é ótimo, principalmente se for aquelas bem grandes e macias. Além de satisfazer a necessidade, ainda trabalha a coordenação motora. Ou ainda, bater em almofadas, na cama. Sempre buscar meios alternativos.
Pra quem sobre em coisas e pula, pode ser direcionado a fazer isso em um pula pula, ou sentado em bolas como as de pilates.

Alguns autistas que possuem atitudes como se arranhar, beliscar, morder, bater com a cabeça na parede, se bater, e se esses comportamentos não tem relação com a tentativa de comunicação, com o estímulo da parte oral, nem com a parte de sentir o impacto, podem estar fazendo, porque também estão tentando sentir o corpo, mas mais especificamente a pressão no corpo. Também é um déficit na propriocepção. Bater com a cabeça pode levar ao prazer, pois é uma forma de pressão. Eu sinto muita necessidade de pressão no meu corpo, principalmente na cabeça. Pra isso, eu uso abafador de ouvido daqueles estofados, de operadores de máquina, que são bem justos e aliviam essa necessidade insuportável, sem machucar. Outra alternativa, são as roupas justas. Calças legging, algo que sentimos o tempo todo. Algumas mães enrolam a criança em um edredom pra se aliviarem. A autista Dra. Temple Grandin, até inventou sua máquina do abraço, pra sentir esse aperto, sem necessariamente precisar do contato físico. Coletes com peso também são uma alternativa usada.

A seletividade alimentar que é uma dificuldade que vários de nós possuímos e também esta relacionada ao processamento sensorial. Alguns autistas só comem comidas crocantes, outros, pastosas. Há ainda os que comem cada alimento em um prato e os que comem com tudo no mesmo prato, mas que não toleram que as comidas diferente se encostem. Existem aqueles que comem um alimento de cada vez, outros misturam tudo, inclusive doce com salgado. Muitos não comem nada de uma determinada cor e forma, ou comem sempre as mesmas coisas. Há autistas que até certa idade comiam de tudo, depois começam a rejeitar. Enfim, cada um vai demonstrar essa seletividade de uma forma.
É bom esclarecer que isso não é frescura, é realmente uma dificuldade que temos com a parte visual, olfato e com a textura dos alimentos.
A maiorias das pessoas escolhem a comida que apreciam através do paladar, alguns nem prestam atenção na textura, ou não observam a aparência, focam sempre no gosto. Com o autista, geralmente é o contrário, prestamos mais atenção na aparência, cheiro e textura do que no gosto. Alguns alimentos podem ter gosto bom, mas a consistência é desagradável na boca, o cheiro é muito forte, ou a aparência é estranha aos olhos. Pode até lembrar algo desagradável.
Também acho curioso quando as pessoas dizem “Você só come isso, não enjoa?” Eu enjoo, mas eu demoro muito tempo pra isso. Esse comer sempre as mesmas coisas, faz parte das repetições que tanto gostamos. Repetimos tudo, até os alimentos. Não deixa de ser uma forma de rotina.
Introduzir novos alimentos no cardápio de um autista, pode ser uma tarefa dificil, que necessita muita persistência, mas não é impossível. Deve ser feito aos poucos (não adianta de um dia para o outro encher o prato da pessoa com o que ele não tolera, que não vai funcionar). Bom colocar em um prato separado de início, pra depois por no prato dela. Assim, vai ter tempo pra se acostumar. Lembrar sempre da parte visual, que agrade, do cheiro e da textura. As vezes a textura de uma fruta não é tolerável, mas se for feito um suco, o indivíduo pode gostar. As vezes um pedaço inteiro de carne incomoda pra ver, mas se for cortada em pedacinhos pequenos, funciona. O segredo é não desistir. Tentar de todas as formas.

*Uma observação. Muitas vezes. a criança, ou adulto tem dificuldade pra comer em certos lugares, ou realizar determinadas atividades, porque ele não foi ensinado a fazer o que deve ser feito, em vários ambientes. Exemplo: você ensina a pessoa a usar o banheiro, mas só ensina na sua casa, imaginando que ela vai generalizar que se deve usar o banheiro em todo lugar. Porem, ela pode não entender isso. Ela pode criar um mapa mental de que se usa o banheiro somente em casa porque foi onde você ensinou, então, em outros ambientes, ela vai segurar, ou fazer na roupa, no chão. Isso serve pra tudo, sempre que for ensinada uma atividade nova, ela deve ser praticada em todos os ambientes que precisará ser realizada.

As pessoas necessitam ter em mente que todo comportamento tem um motivo. Por mais “estranho” que aparente, ele esta sendo feito porque há uma necessidade por trás. Desse modo, observar o autista que você tem contato é a melhor forma de descobrir esses motivos. Usar de estratégias, não pra eliminar a necessidade, mas pra direcionar pra algo não prejudicial e que terá o mesmo efeito. A terapia ocupacional também é de grande auxílio para indivíduos com TPS.

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora