A minha vida de autista

Muitos perguntam como é a vida do autista. Aqui eu relato um pouco sobre isso.
Desde bebê apresentei um desenvolvimento atípico (não olhar nos rostos das pessoas, não atender pelo nome, preferir o carrinho do que o colo, não dar os braços para pedir colo, passar muito tempo na mesma atividade repetitiva, crises de ausência, sensibilidade a barulhos, choro intenso, etc) que fez com que minha família tentasse procurar respostas através do médico, mas nunca obtiveram, porque faltava conhecimento. Nossa cidade é no interior, e minha mãe nunca havia ouvido falar em autismo. Se hoje em dia é difícil capacitação profissional, imagina a mais de 20 anos atrás.

Assim eu cresci com elas mesmas contornando as situações. Eu não tenho pai, então quem me criou foi minha mãe, tia e avó. Sou abençoada porque elas foram extremamente importantes no meu desenvolvimento. Foram minhas professoras, minhas terapeutas, minhas amigas. Sem diagnóstico, sem conhecimento, elas fizeram a maioria das coisas certo. Elas me estimulavam, me respeitavam e me amam como eu sou. Sou o que sou por causa delas.

Eu nunca fui uma criança “fácil”. Tinha crises de grito e choro que fazia com que os vizinhos fossem até nossa casa para ver o que estava acontecendo. Minha mãe saía as vezes de madrugada comigo gritando, bater na porta do médico, da benzedeira. Elas recorriam a tudo porque nada resolvia. Teve uma época que minha tia e avó achavam até que tinha algum espírito me atormentando, porque aquilo não era normal. Enquanto eu crescia, ouvia minha avó dizer que uma hora iria baixar polícia e conselho tutelar em casa por conta disso. Nunca aconteceu, graças a Deus.

Eu tinha várias dificuldades de comunicação apesar de ser verbal. Falei na idade normal, andei mias tarde, mas não usava as palavras para me comunicar, para pedir, para mostrar, para contar algo. Eu me irritava e começava a chorar e ninguém sabia o que era, as vezes era fome, era calor, era a roupa que me incomodava, mas eu não sabia dizer.

Com dois anos comecei a me interessar por letras. Eu olhava muito livros, cadernos e minha mãe percebeu que eu gostava de letras. Aos 3 anos tive meu hiperfoco ( interesse muito forte) em dinossauros. Tudo era dinossauros. Fitas cassete, desenhar, querer escrever. Então ela comprava revistas e livros sobre o tema. Comprava almanaques da turma da Mônica, onde tinha o filhote de T-rex, Horácio. Isso era um incentivo. Eu comecei então a copiar os desenhos dos livros (atualmente eu desenho copiando de fotos de pessoas, e tenho habilidades em arte). Aos 4 anos eu lia e escrevia. Só que essa inteligência para uma parte, não facilitava a outra.

Entrei na escola aos 6 anos já alfabetizada. Minha mãe diz que ainda bem, porque se fosse esperar da escola, eu estaria analfabeta até hoje. 
A escola foi um inferno na minha vida. Eu não ficava na sala por muito tempo. Eu gritava, eu chorava eu deixava as professoras desesperadas, por causa do barulho. Sinal tocando, criança falando, gritando. Era horrível. Eu não socializava. Se tinha um grupo de crianças em uma ponta, eu estava na ponta oposta. Eu não brincava com eles, não conversava, não atendia a nenhum comando da professora, não respondia pelo nome, não fazia as atividades, eu só chorava e tentava sair da sala. Se mudava a professora, era outro caos, não aceitava a nova, não aceitava mudanças, ou que me tocassem. Eu não sabia que o que eu sentia era calor, frio, fome, vontade de ir ao banheiro, devido a dificuldade na interocepção ( sentir dentro do nosso corpo). Então o incômodo que eu não sabia contar virava em irritação e crise. Fazia xixi na roupa, porque precisava de alguém sempre me levando ao banheiro, já que eu não sentia quando a bexiga enchia. Na escola não tinha ninguém, então, fazia na roupa quando chegava no limite. As professoras sempre brigavam comigo por isso.

Com todos esses episódios ninguém sabia contornar, eles quase todo dia chamavam alguém de casa para me buscar. Não terminei o pré, minha mãe me tirou da escola pois não estava aprendendo nada, só sabiam me mandar para casa. Em casa eu aprendia mais. 
No ano seguinte eu voltei no primeiro ano. Foi o mesmo inferno, mesmas situações, me levavam e buscavam no meio do dia, mas dessa vez minha mãe não me tirou da escola. Assim eu fui segundo os anos. Eu não fazia atividades em sala, fazia tudo em casa. Eu já tinha 8, 10 anos e não relatava fatos. Fui crescendo e as professoras me chamavam de esquisita, as crianças riam de mim. Eu não tinha amigos.

Na pré adolescência as coisas pioraram porque veio o bullying mais intenso. Na infância eu sofria, mas eu não entendia muito o motivo. Para mim, eu era a normal e eles os diferentes. Mais tarde minha visão já começou a mudar. Diziam que eu saí da APAE porque eu me balançava, mexia com as mãos. Riam de mim, me empurravam, puxavam meu cabelo, beliscavam, perguntavam por que eu era esquisita, mas eu não sabia responder. Então eu comecei a ter noção de que eu era diferente, mas não sabia o motivo. Aos 13 anos eu achava que era louca, pois a única explicação que eu tinha, já que fisicamente eu era saudável. Comecei a pensar que seria internada em um hospício quando adulta.

Depois que terminei o ensino médio eu ficava só em casa desenhando e no computador. Não saía, não tinha amigos, não conversava. 
Em 2012 tentei faculdade, mas não consegui ficar, tentei curso técnico e não consegui. Em 2013 eu tentei novamente faculdade, mas também não consegui. Tentei duas vezes a distância e fi um fracasso. No total eu tentei 5 vezes um ensino superior sem sucesso. Passei um tempo me achando um lixo, com todas as minhas primas trabalhando, formadas e eu não conseguia nada.

Eu comecei a ir em uma psicóloga que levantou a suspeita de autismo, mas em contrapartida, disse que não tinha o que fazer comigo, eu já era adulta, teria que “me virar sozinha” com meus problemas. Isso acabou comigo. Pensei que não tinha esperança, eu era um caso perdido. 
Mudei de psicóloga e essa foi uma benção. Pediu para eu passar com um neuro ou psiquiatra, pois certamente eu sou autista e tinha como ela me ajudar, sim. Tanto que me ajuda até hoje. Voltei para a faculdade com diagnóstico, minha mãe conversou com a coordenadora do curso que foi outra benção e comecei a faculdade com adaptações as minhas necessidades. 
Todos me conheciam lá, sabiam do meu jeito, mas me acolheram. Fiz duas amigas que me ajudavam quando eu tinha crise, quando não entendo as coisas. Os professores me ajudavam em tudo. Foi uma inclusão muito boa. Terminei esse ano o curso de pedagogia, graças a Deus.

Eu sou autista leve, mas minha vida não foi nada leve. Eu escrevo muito bem, mas na oralidade não é tanto assim. Eu falo incansavelmente sobre meus hiperfocos, mas o resto dos assuntos eu quase nem falo. Não tenho total autonomia ainda. Preciso da minha mãe me ajudando. Me lembrando de tomar banho, de comer, de beber água. Me ajudando nas crises. Ainda não sei sair na rua e fazer compras ou pagar uma conta. Não consigo trabalhar ainda. Preciso de suporte. Mas vou vencendo aos poucos. Um pouco todo dia. Eu aprendi, a poucos anos, mas aprendi a me expressar através da escrita e faço bem. Dou algumas palestras nas escolas sobre autismo com minha amiga que é psicopedagoga. Eu gosto de ajudar. Minha oralidade está melhor com isso.


Meu propósito é ajudar para que as crianças não passem pelo que eu passei e que os adultos se entendam, por isso gosto de falar e escrever sobre autismo. Gostaria que um dia todos os autistas fossem ouvidos. Desde os não verbais por meio da comunicação alternativa, até os verbais falando por si e decidindo sua própria vida.

Publicado por carolsouzaautistando

Olá. Meu nome é Caroline, tenho 25 anos e sou autista. Terminei a graduação em pedagogia em outubro desse ano e pretendo fazer especializações em Psicopedagogia e Educação Especial. Adoro escrever sobre autismo, assistir a série The Big Bang Theory, pesquisar sobre dinossauros e desenhar. Tive diagnóstico tardio, as 23 anos, por isso sei como é difícil enfrentar o descaso e falta de capacitação de diversos profissionais da saúde durante uma vida toda. Em um mundo onde há um imenso número de autistas e poucas informações corretas acerca do assunto, se torna extremamente importante que cada um faça sua parte para mudar essa realidade. Atualmente, muitos autistas tem dado sua contribuição se expressando de várias maneiras. Espero profundamente que todos sejamos ouvidos e aceitos. O propósito desse blog é justamente esse, contribuir para a compreensão do espectro, compartilhando informações e vivências. Espero que os conteúdos auxiliem de alguma forma na vida de cada um.

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