Autismo e Sexualidade

Algumas perguntas do tipo: “Mas autista namora?” “Autista casa e tem filhos”, sempre aparecem. É bom deixar claro que autistas são seres humanos, então, sim!
Muitos desejam encontrar um parceiro (a) como qualquer pessoa. Alguns almejam constituir família e ter filhos.

Todos sabem que relacionamentos não são fáceis para absolutamente ninguém. Conviver e entender o ser humano é difícil. Quando falamos de relações que envolvem o autista, a dificuldade é muito maior, mas não impossível.

Primeiro, é importante que a pessoa neurodiversa encontre alguém que a aceite com todas as suas particularidades. Nada de tentar mudar algo não prejudicial para agradar o outro.

Nós somos tão seres humanos quanto os não autistas, mas temos idiossincrasias muito especificas que precisam ser compreendidas e respeitadas. Do contrário pode se transformar em um relacionamento abusivo e isso não pode ser tolerado. Em contrapartida, também precisamos aprender a aceitar e conviver com as diferenças do outro para que as coisas dêem certo.

Eu vejo muito casos de pais tentando impedir que os filhos se relacionem amorosamente. E não digo aqui me referindo aos autistas não verbais, mas aos verbais. 
Mães que negam o direito do filho (a) conversar com um pretendente, sair para conhecer pessoas, iniciar um namoro por medo da pessoa se decepcionar, de não dar certo. “Meu filho não é capaz”. Como você sabe que ele não é capaz se nem ao menos deixa tentar? E se não der certo, ele aprenderá a lidar com a situação.

A família precisa entender que autistas crescem e as necessidades mudam de acordo com esse crescimento, como qualquer outra pessoa. 
Neurodiversos podem querer beijar e ter uma vida sexualmente ativa. O autismo não impede de desejar o que outros adolescentes e adultos desejam. Tentar se iludir pensando que o filho será eternamente uma criança protegido pelos pais, é um erro que atrapalha muito a independência do indivíduo.

Há vários autistas que são a prova disso. São casados, namoram, tem filhos e levam uma vida boa de acordo com suas particularidades.

Por outro lado, há os que não conseguem ou não querem estabelecer uma relação amorosa com alguém. Não querem namorar, casar, ou ter filhos. Não querem relação sexual ou coisas do tipo e está tudo bem. Cada um deve fazer o que for melhor para si.

Com esses o problema normalmente é a pressão social e dos pais para levar uma vida “típica”. “Você não pode ficar sozinho, quem vai cuidar de você depois que eu morrer?”, “Você precisa encontrar alguém para constituir família”. 
Isso também nos atrapalha. Meu parceiro não vai ser meu pai ou minha mãe, vai ser meu parceiro. Ele não tem a obrigação de cuidar de mim, e se eu tiver filhos também não. Quem garante que me ajudarão? Quem garante que não me darão mais estresse do que se eu estivesse sozinha? Não tem como prever esse tipo de coisa. É muito mais fácil eu aprender a cuidar de mim ou pedir ajuda a outras pessoas se necessário, do que ter que cuidar de uma família.

No meu caso por exemplo, eu não consigo estabelecer um relacionamento amoroso. Já tive dois namorados, um aos 23 durando 9 meses e outro a pouco tempo, aos 26 anos, durando 1 mês. 
Ambos são ótimas pessoas, mas a questão foi comigo mesmo. Não consigo me habituar a dividir minha vida com outra pessoa tão intimamente. Mudar toda minha rotina por causa de alguém. Gosto de ficar sozinha, gosto do meu espaço, das minhas coisas. Passo o dia inteiro no meu quarto. Minha mãe sempre diz que mesmo que eu fique 3 horas na sala com ela eu fico sem conversar, imagina em um namoro que se espera interação e atenção constante? Desgasta. Em 1 mês eu já estava ficando desgastada. Era como se a minha “bateria” não durasse mais como antes. Eu sentia que tinha perdido a minha vida, que estava sendo consumida. E nada disso significava que eu não gostasse da pessoa. Eu gostava e gosto muito, só que eu tenho uma forma diferente de me relacionar.

Fora a interação, ainda havia mais o problema da questão sensorial. Não suporto beijo, toque direto na pele, carícias e nem pensar em relação sexual. O relacionamento virava em abraço bem apertado por cima da roupa e beijo selinho.
Obviamente que uma relação não se sustenta somente com isso, então melhor cada um seguir sua vida.

A questão é que nem todos os autistas precisam de um namorado e nem todos precisam ficar sozinhos. Existem inúmeros tipos de neurodiversos, assim como inúmeros tipos de neurotípicos. Cada um precisa viver de acordo com seu desejo e ser respeitado.

Publicado por carolsouzaautistando

Olá. Meu nome é Caroline, tenho 25 anos e sou autista. Terminei a graduação em pedagogia em outubro desse ano e pretendo fazer especializações em Psicopedagogia e Educação Especial. Adoro escrever sobre autismo, assistir a série The Big Bang Theory, pesquisar sobre dinossauros e desenhar. Tive diagnóstico tardio, as 23 anos, por isso sei como é difícil enfrentar o descaso e falta de capacitação de diversos profissionais da saúde durante uma vida toda. Em um mundo onde há um imenso número de autistas e poucas informações corretas acerca do assunto, se torna extremamente importante que cada um faça sua parte para mudar essa realidade. Atualmente, muitos autistas tem dado sua contribuição se expressando de várias maneiras. Espero profundamente que todos sejamos ouvidos e aceitos. O propósito desse blog é justamente esse, contribuir para a compreensão do espectro, compartilhando informações e vivências. Espero que os conteúdos auxiliem de alguma forma na vida de cada um.

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