Hiperfoco no autismo

Os interesses especiais são um ou mais assuntos que o autista gosta muito. Alguns profissionais da saúde costumam chamar de “interesses restritos”, porém varias pessoas da comunidade autista não gostam desse termo, visto que nossos interesses não são restritos, podem mudar.

Um assunto as vezes nos leva a pesquisar outro e acabamos nos interessando por esse outro. Podemos passar por vários durante a vida, ou ter o mesmo a vida inteira. Ter um ou ter quatro, cinco. Passar anos com o mesmo ou apenas dias, semanas. Ter um tema que era de interesse na infância e voltar nele anos depois. 
Tudo depende muito de cada indivíduo. Não existe regra.

Esses interesses são mais conhecidos como hiperfoco. Hiperfoco (como o próprio nome já diz) porque quando estamos pesquisando ou fazendo algo relacionado a ele, normalmente estamos muito concentrados. Muito mais do que os neurotípicos. Eu por exemplo não ouço quando falam comigo, nem percebo quando entram ou saem do mesmo cômodo. Posso esquecer de comer, de beber água, ir ao banheiro, tomar banho, dormir. É extremamente intenso. 

Eu escolhi essa imagem, primeiramente porque o meu primeiro hiperfoco foi sobre dinossauros e segundo porque os ceratopsídeos são minha segunda família favorita de dinossauros. 
Eu tinha três anos quando ganhei meu primeiro livro referente. Me apaixonei por esses gigantes. Aprendi a desenhar, desenhava eles, olhava o livro várias vezes no dia, fazia listas das espécies, assistia Jurassic Park muitas e muitas vezes. 
O que lamento é que nessa época (mais de 20 anos atrás), não havia tantas coisas sobre como há hoje. Nem internet tínhamos até eu ter uma certa idade. Não pude aproveitar os brinquedos maravilhosos e realistas que vemos atualmente. 
Esse hiperfoco durou anos. Foi até minha adolescência. Até os 13 anos mais ou menos. Eu dizia que seria paleontóloga. 

Certa vez, quando eu tinha em torno de 8,9 anos, decidi que iria abrir um buraco no nosso quintal para procurar um fóssil. Eu passava dias o dia inteiro no quintal cavocando cimento com qualquer coisa que encontrasse, procurando os fósseis. 
De tanto que eu insisti tirei um pedacinho daquele cimento grosso e enxerguei algo bem branquinho, só aparecia a pontinha. Acreditei realmente que era um osso de dinossauro. Trabalhei mais duro ainda. Dormia e acordava pensando nisso. Continuava raspando cimento até que consegui soltar ele um pouco e para minha frustação, era um pedacinho de cano. 

Foi decepcionante. Minha mãe explicava que não tinha como ser fóssil por causa da profundidade, mas eu estava muito indignada. Mesmo depois disso não deixei meu interesse de lado. Não. Minha vida era imaginar dinossauros, desenhar, ler, assistir e escrever lista de dados sobre eles. 

Nesse meio tempo vieram interesses mais curtos, digamos assim. Tive hiperfoco sobre animais da África devido a animação O Rei Leão. Animais do Canadá, mais precisamente os ursos devido ao filme Irmão Urso. Mapas, porque eu procurava os países e cidades que os dinossauros viviam então acabei gostando de olhar mapas. Os mapas me levaram a ao Havaí então desenvolvi um hiperfoco em Lilo & Stitch que eu assistia sagradamente todas as noites, e nas músicas havaianas. Gravei no celular e aprendi a letra de todas e as falas do filme inteiro eu sei até hoje. 
Na adolescência já deixando os dinossauros de lado, comecei a me interessar fortemente sobre o Egito Antigo, Nifertiti. Em seguida vieram os filmes e atores. Fazia listas de atores e filmes que fizeram. Mais tarde a série The Big Bang Theory (que eu já fiz um post explicando o motivo e já dura pouco mais de 6 anos). Por último, depois do meu diagnóstico, hiperfoco em autismo. 

Atualmente estou com esses dois (Autismo e The Big Bang Theory) e talvez com uma recaída em um terceiro, o meu primeiro hiperfoco que foi em dinossauros. 

Eu já sou adulta, mas amo coisas consideradas infantis, principalmente se for do que eu gosto, como bonecos da série ou de dinos. O fato problemático não é esse, “gostar de bonecos”, mas o de que apesar de adulta, ainda não sou financeiramente independente para sustentar meus hiperfocos e na maioria das vezes eles nos dão gastos. 

De qualquer forma, os interesses do autista não precisam ser especificamente um assunto que ele pesquise, mas algo como pedras, objetos como pregadores de roupa, coisas que o indivíduo goste muito e as vezes até hiperfoque olhando para elas. 

Nossos interesses fazem parte do nosso mundo. São importantes. Eles nos tranquilizam, confortam e podem até se tornar uma profissão futuramente. Mesmo que não se torne, é algo que nos faz bem na maioria das vezes. Se faz bem, não deve ser retirado. 

Apesar de serem visto como um problema para os professores, quando o aluno só quer saber de um assunto, isso pode ser driblado sem necessidade de retirar (acreditem, não é tarefa fácil retirar um interesse de um autista). O professor pode usar dele para ensinar vários conteúdos. É muito proveitoso. 
No meu caso por exemplo, talvez, se tivessem pesquisado sobe o que eu gostava, minha vida escolar não teria sido o terror que foi. Eu poderia ter aprendido sobre países usando dinossauros (como de fato eu aprendi, mas não na escola), matemática, história, etc. 

Eu amo meus interesses. São realmente especiais pra mim. 

Publicado por carolsouzaautistando

Olá. Meu nome é Caroline, tenho 25 anos e sou autista. Terminei a graduação em pedagogia em outubro desse ano e pretendo fazer especializações em Psicopedagogia e Educação Especial. Adoro escrever sobre autismo, assistir a série The Big Bang Theory, pesquisar sobre dinossauros e desenhar. Tive diagnóstico tardio, as 23 anos, por isso sei como é difícil enfrentar o descaso e falta de capacitação de diversos profissionais da saúde durante uma vida toda. Em um mundo onde há um imenso número de autistas e poucas informações corretas acerca do assunto, se torna extremamente importante que cada um faça sua parte para mudar essa realidade. Atualmente, muitos autistas tem dado sua contribuição se expressando de várias maneiras. Espero profundamente que todos sejamos ouvidos e aceitos. O propósito desse blog é justamente esse, contribuir para a compreensão do espectro, compartilhando informações e vivências. Espero que os conteúdos auxiliem de alguma forma na vida de cada um.

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