O que é disfunção executiva?

Para quem gostaria de saber o que é essa coisa horrível que dificulta nossa vida, aqui vai uma breve explicação.

As funções executivas são um conjunto de habilidades que possibilitam que direcionemos nosso comportamento para cumprir metas, iniciar e finalizar tarefas, alterar entre uma atividade e outra, ter flexibilidade cognitiva, saber priorizar, elaborar estratégias e mudar as mesmas caso não sejam eficientes o suficiente para resolução de problemas (o famoso plano B). Também ajudam a avaliar nossos comportamentos como adequados e inadequados.

De maneira simplificada, as funções executivas organizam as demais funções cognitivas como a linguagem, a memória, concentração, auto controle, etc. Isso tudo tem resultado direto no nosso comportamento e capacidade de realização de determinadas tarefas do dia a dia.

Quando temos a DISFUNÇÃO executiva, como consequência também temos dificuldade no controle emocional ( lidar com as emoções), no controle inibitório (“segurar” a frustração por exemplo e não ter uma crise quando algo sai do controle), aspectos como a empatia cognitiva (saber que o outro não está bem apenas observando traços da sua fisionomia ou sua linguagem corporal e fazer algo para ajudar), ter noção do que é adequado dizer ou fazer e o que pode ser interpretado como falta de respeito, iniciar tarefas (saber que necessita fazer algo, mas não conseguir se organizar para dar início).
Tudo isso engloba as funções executivas e nenhuma relação tem com a inteligência. A pessoa pode ser super inteligente, um QI até muito acima da média, mas essa inteligência não garante sucesso se tratando desses fatores.

O córtex pré-frontal é onde se localizam os neurônios responsáveis por essas funções que estou dizendo. Eles só recebem a mielinização por volta dos 18 anos mais ou menos. (mielinização é o processo de criação de uma camada de gordura, chamada bainha de mielina envolta no neurônio. Essa, ajuda na transmissão do estímulo de um neurônio para outro). Já nascemos com a maioria dos neurônios mielinizados (com a camada de gordura) totalmente, mas há alguns que só vão terminar de mielinizar completamente na adolescência e/ou durante a vida adulta.

Já observaram que quando as pessoas ficam idosas, elas parece que perdem a noção do que é socialmente certo ou errado e muitos dizem que voltam a ser criança? A maioria passa a falar o que pensa sem nenhum filtro. Isso ocorre porque primeiro a perder células neurais com a chegada da terceira idade é o córtex pré frontal, afetando as benditas funções executivas.

Isso não acontece só com idosos, mas com autistas, pessoas com TDAH, Alzheimer, depressão, transtornos de ansiedade, transtornos de personalidade, demência, lesões no cérebro, estresse crônico, abuso de drogas, dentre outras condições. Ressaltando que esses déficits executivos podem ser permanentes ou temporários.

O nosso maior problema é que quase ninguém entende isso. Toda essa questão fisiológica é vista pela maioria como? Preguiça, falta de vontade, de esforço. “Você não faz porque tem preguiça”, “Você não faz porque você não se esforça o suficiente”. Eu ouço isso o tempo todo e é muito triste. Queria que a pessoa entrasse na minha mente e visse como é você querer fazer, saber que precisa fazer, que gosta de fazer, mas não conseguir.

Parece tão simples para neurotípicos sentar no computador e ver uma vídeo aula por exemplo, que é super interessante pra você, e fazer a hora que quiser, já que você não trabalha, mas é uma tarefa hercúlea para quem tem disfunção executiva.

Quando você tem preguiça, é completamente diferente. Você não se sente disposto para fazer aquilo, não tem vontade, não gosta, não quer, prefere fazer outra coisa, dá uma moleza…

Ex: Eu tenho preguiça de ir lá no armário guardar o pacote da bolacha que eu terminei de comer. Posso fazer isso depois, então enquanto isso ele fica aqui do meu lado. Eu não me sinto motivada para fazer essa tarefa agora, estou com preguiça de levantar.

Ex de disfunção executiva: Eu tenho 12 aulas para assistir e vários artigos para ler. Eu quero fazer isso porque são de certa forma ligados ao meu hiperfoco central (autismo). São sobre disgrafia, discalculia, disortografia e o TDAH. Mas por onde eu começo? Eu assisto as aulas primeiro ou eu leio o artigo? Qual artigo eu leio? Qual aula eu assisto? Eu assisto a aula 1 inteira ou eu assisto uma parte e depois retorno? Eu leio em seguida da aula 1 artigo, ou eu vou para a aula 2? Eu faço tudo no mesmo dia ou eu faço um por dia? Um por dia é suficiente? Um artigo, um vídeo ou os 2? Ou eu leio mais de um artigo por dia? E que dias e horários eu faço isso? Eu não trabalho, tenho o dia todo, mas que hora do dia eu inicio? Agora ou daqui a 1h?

Nesse ponto já passou o dia, eu já surtei e não comecei absolutamente nada! E no dia seguinte? Será a mesma coisa.
“Ah, mas é só montar uma agenda, um calendário, uma lista e estipular os dias”. Tem gente que funciona, mas comigo até hoje não deu certo. Eu tentei agenda, tentei alarme no celular, tentei calendário, e tenho um imenso painel bem na frente dos meus olhos com tudo colado sobre o que eu tenho que fazer, mas não funciona! Não funciona porque eu não consigo fazer o passo a passo da atividade.

Disfunção executiva NÃO é a mesma coisa que preguiça. Nós precisamos de ajuda e compreensão.

Autismo no feminino

Esse é um tema que tem sido muito discutido atualmente, principalmente em grupos e páginas de autistas.
Existe diferença na manifestação do autismo entre indivíduos do sexo feminino e masculino? Sim, existe. As pessoas, principalmente os profissionais da saúde, precisam atualizar seus conhecimentos sobre esse fato.

Durante muito tempo, acreditou-se que o Autismo era uma condição quase que exclusivamente masculina (por isso a cor azul representando). O psiquiatra austríaco Leo Kanner, assim como outros médicos posteriormente, realizavam suas pesquisas com pacientes em sua maioria, meninos. Desse modo, os critérios para diagnóstico foram baseados em comportamentos masculinos.
Isso não significa que não existiam meninas com autismo naquela época, mas assim como atualmente, os casos mais leves, passavam despercebidos. 
Hoje, vários estudos apontam que o número de autistas do sexo feminino, não é absurdamente inferior a do sexo masculino como se pensava. O que ocorre é o subdiagnóstico. Infelizmente, para muitos médicos ainda faltam pesquisas no campo. Há os que se mantem convictos de que meninas só manifestam a condição de forma severa. Alguns afirmam as suas pacientes quando buscam por ajuda, que autismo leve no feminino, não existe (vemos esses relatos quase que diariamente nos grupos de autistas adultos). Nitidamente, nosso país enfrenta escassez de profissionais capacitados para dar o diagnóstico, e isso dificulta a vida de muitas pessoas.

Mulheres autistas tendem a apresentar os sinais desde cedo, assim como os homens, mas a forma é mais sutil. Assim, dificilmente a família nota algo em idade precoce. A medida que cresce, a própria pessoa começa a perceber que é diferente da maioria, mas não sabe o motivo exato. Na tentativa de se “ajustar” a sociedade, muitas desenvolvem transtornos de ansiedade e depressivos, devido ao desgaste que passam durante a vida, sem um diagnóstico assertivo. Quando procuram um médico, somente esses transtornos coexistentes são identificados. O autismo acaba sendo camuflado, se o profissional não for especializado para notar (como boa parte das vezes, não é). Isso, quando não recebem diagnósticos errados de TOC, esquizofrenia, transtorno bipolar e etc.

Pessoas do sexo feminino podem ser muito boas em mascarar certas características através da imitação do comportamento dos demais. Tentam assumir uma personalidade que não é delas, para serem aceitas pelas pessoas. Isso causa um grande estresse, pois é como se o indivíduo não tivesse o direito de ser ele mesmo. 
Outro ponto, é a visão que a sociedade construiu ao longo da história sobre a mulher. Meninas quietas, que não interagem bem, não são vistas com uma dificuldade, são apenas tímidas e recatadas. “É normal” e bom que as garotas sejam assim. Já um menino que não se relaciona com os pares, é notado de longe, porque não é algo aceito. 
Eu passei boa parte da minha vida sendo vista como tímida. As pessoas diziam “Essa menina é muda?”, “Não conversa”. A resposta era: “É porque ela é tímida”. Hoje sabemos que eu nunca fui tímida, visto que a timidez é diferente. Pessoas tímidas tem vergonha excessiva. Medo de conversar, de se relacionar com os demais. No autismo, existe uma dificuldade em se comunicar com os pares, devido a falta de percepção e compreensão social, ou uma falta de interesse nessa relação. Eu não tinha vergonha de conversar, eu só não sabia como fazer isso. Não sabia como falar sobre o que as outras crianças falavam ou manter um diálogo, e na maioria das vezes, não me interessava em fazer isso.

Enquanto os meninos podem ter stims (movimentos repetitivos) desde bem pequenos, que chamam atenção (abanar as mãos, balançar o corpo), nas meninas, esses comportamentos podem ser “socialmente comuns” e mais discretos, como balançar a perna, por exemplo. Algo que pessoas neurotípicas também fazem, mas de forma menos intensa e em menor frequência. 
Os interesses especiais também podem ser diferentes. Muitos autistas do sexo masculino possuem interesses incomuns para a idade, como astronomia, países, mapas (embora mapas e países tenha sido alguns dos meus interesses). Em contrapartida, bonecas, Peppa Pig, desenhos, podem ser alguns dos interesse de uma autista, mas não são percebidos como um hiperfoco, porque é algo corriqueiro em crianças do sexo feminino.

Isso NÂO significa que TODAS as mulheres autistas se comportarão dessa forma, com interesses convencionais, stims discretos e camuflagem, mas significa que essa é a realidade de muitas que passam invisíveis. Sofrem em silêncio sem diagnóstico e sem apoio. 
O amplo espectro com suas variações, é ainda pouco conhecido. Estereótipos infelizmente prevalecem em nossa sociedade. A única forma de mudar esse quadro é através da disseminação de informações. 
Mulheres autistas subdiagnosticadas existem aos montes. Só precisam de um olhar atento voltado a elas.

*Essa imagem é de uma cena do filme “Tudo que quero”. O longa retrata a vida de uma autista que tem hiperfoco na série Star Trek e busca por autonomia. Pra quem ainda não viu, vale a pena. É um dos poucos filmes que tratam do autismo no feminino e com qualidade.

Descrição da imagem: Foto de uma jovem loira com longos cabelos, usando uma blusa de lã de cor laranja, segurando um envelope junto ao peito. Fim da descrição.

A minha vida de autista

Muitos perguntam como é a vida do autista. Aqui eu relato um pouco sobre isso.
Desde bebê apresentei um desenvolvimento atípico (não olhar nos rostos das pessoas, não atender pelo nome, preferir o carrinho do que o colo, não dar os braços para pedir colo, passar muito tempo na mesma atividade repetitiva, crises de ausência, sensibilidade a barulhos, choro intenso, etc) que fez com que minha família tentasse procurar respostas através do médico, mas nunca obtiveram, porque faltava conhecimento. Nossa cidade é no interior, e minha mãe nunca havia ouvido falar em autismo. Se hoje em dia é difícil capacitação profissional, imagina a mais de 20 anos atrás.

Assim eu cresci com elas mesmas contornando as situações. Eu não tenho pai, então quem me criou foi minha mãe, tia e avó. Sou abençoada porque elas foram extremamente importantes no meu desenvolvimento. Foram minhas professoras, minhas terapeutas, minhas amigas. Sem diagnóstico, sem conhecimento, elas fizeram a maioria das coisas certo. Elas me estimulavam, me respeitavam e me amam como eu sou. Sou o que sou por causa delas.

Eu nunca fui uma criança “fácil”. Tinha crises de grito e choro que fazia com que os vizinhos fossem até nossa casa para ver o que estava acontecendo. Minha mãe saía as vezes de madrugada comigo gritando, bater na porta do médico, da benzedeira. Elas recorriam a tudo porque nada resolvia. Teve uma época que minha tia e avó achavam até que tinha algum espírito me atormentando, porque aquilo não era normal. Enquanto eu crescia, ouvia minha avó dizer que uma hora iria baixar polícia e conselho tutelar em casa por conta disso. Nunca aconteceu, graças a Deus.

Eu tinha várias dificuldades de comunicação apesar de ser verbal. Falei na idade normal, andei mias tarde, mas não usava as palavras para me comunicar, para pedir, para mostrar, para contar algo. Eu me irritava e começava a chorar e ninguém sabia o que era, as vezes era fome, era calor, era a roupa que me incomodava, mas eu não sabia dizer.

Com dois anos comecei a me interessar por letras. Eu olhava muito livros, cadernos e minha mãe percebeu que eu gostava de letras. Aos 3 anos tive meu hiperfoco ( interesse muito forte) em dinossauros. Tudo era dinossauros. Fitas cassete, desenhar, querer escrever. Então ela comprava revistas e livros sobre o tema. Comprava almanaques da turma da Mônica, onde tinha o filhote de T-rex, Horácio. Isso era um incentivo. Eu comecei então a copiar os desenhos dos livros (atualmente eu desenho copiando de fotos de pessoas, e tenho habilidades em arte). Aos 4 anos eu lia e escrevia. Só que essa inteligência para uma parte, não facilitava a outra.

Entrei na escola aos 6 anos já alfabetizada. Minha mãe diz que ainda bem, porque se fosse esperar da escola, eu estaria analfabeta até hoje. 
A escola foi um inferno na minha vida. Eu não ficava na sala por muito tempo. Eu gritava, eu chorava eu deixava as professoras desesperadas, por causa do barulho. Sinal tocando, criança falando, gritando. Era horrível. Eu não socializava. Se tinha um grupo de crianças em uma ponta, eu estava na ponta oposta. Eu não brincava com eles, não conversava, não atendia a nenhum comando da professora, não respondia pelo nome, não fazia as atividades, eu só chorava e tentava sair da sala. Se mudava a professora, era outro caos, não aceitava a nova, não aceitava mudanças, ou que me tocassem. Eu não sabia que o que eu sentia era calor, frio, fome, vontade de ir ao banheiro, devido a dificuldade na interocepção ( sentir dentro do nosso corpo). Então o incômodo que eu não sabia contar virava em irritação e crise. Fazia xixi na roupa, porque precisava de alguém sempre me levando ao banheiro, já que eu não sentia quando a bexiga enchia. Na escola não tinha ninguém, então, fazia na roupa quando chegava no limite. As professoras sempre brigavam comigo por isso.

Com todos esses episódios ninguém sabia contornar, eles quase todo dia chamavam alguém de casa para me buscar. Não terminei o pré, minha mãe me tirou da escola pois não estava aprendendo nada, só sabiam me mandar para casa. Em casa eu aprendia mais. 
No ano seguinte eu voltei no primeiro ano. Foi o mesmo inferno, mesmas situações, me levavam e buscavam no meio do dia, mas dessa vez minha mãe não me tirou da escola. Assim eu fui segundo os anos. Eu não fazia atividades em sala, fazia tudo em casa. Eu já tinha 8, 10 anos e não relatava fatos. Fui crescendo e as professoras me chamavam de esquisita, as crianças riam de mim. Eu não tinha amigos.

Na pré adolescência as coisas pioraram porque veio o bullying mais intenso. Na infância eu sofria, mas eu não entendia muito o motivo. Para mim, eu era a normal e eles os diferentes. Mais tarde minha visão já começou a mudar. Diziam que eu saí da APAE porque eu me balançava, mexia com as mãos. Riam de mim, me empurravam, puxavam meu cabelo, beliscavam, perguntavam por que eu era esquisita, mas eu não sabia responder. Então eu comecei a ter noção de que eu era diferente, mas não sabia o motivo. Aos 13 anos eu achava que era louca, pois a única explicação que eu tinha, já que fisicamente eu era saudável. Comecei a pensar que seria internada em um hospício quando adulta.

Depois que terminei o ensino médio eu ficava só em casa desenhando e no computador. Não saía, não tinha amigos, não conversava. 
Em 2012 tentei faculdade, mas não consegui ficar, tentei curso técnico e não consegui. Em 2013 eu tentei novamente faculdade, mas também não consegui. Tentei duas vezes a distância e fi um fracasso. No total eu tentei 5 vezes um ensino superior sem sucesso. Passei um tempo me achando um lixo, com todas as minhas primas trabalhando, formadas e eu não conseguia nada.

Eu comecei a ir em uma psicóloga que levantou a suspeita de autismo, mas em contrapartida, disse que não tinha o que fazer comigo, eu já era adulta, teria que “me virar sozinha” com meus problemas. Isso acabou comigo. Pensei que não tinha esperança, eu era um caso perdido. 
Mudei de psicóloga e essa foi uma benção. Pediu para eu passar com um neuro ou psiquiatra, pois certamente eu sou autista e tinha como ela me ajudar, sim. Tanto que me ajuda até hoje. Voltei para a faculdade com diagnóstico, minha mãe conversou com a coordenadora do curso que foi outra benção e comecei a faculdade com adaptações as minhas necessidades. 
Todos me conheciam lá, sabiam do meu jeito, mas me acolheram. Fiz duas amigas que me ajudavam quando eu tinha crise, quando não entendo as coisas. Os professores me ajudavam em tudo. Foi uma inclusão muito boa. Terminei esse ano o curso de pedagogia, graças a Deus.

Eu sou autista leve, mas minha vida não foi nada leve. Eu escrevo muito bem, mas na oralidade não é tanto assim. Eu falo incansavelmente sobre meus hiperfocos, mas o resto dos assuntos eu quase nem falo. Não tenho total autonomia ainda. Preciso da minha mãe me ajudando. Me lembrando de tomar banho, de comer, de beber água. Me ajudando nas crises. Ainda não sei sair na rua e fazer compras ou pagar uma conta. Não consigo trabalhar ainda. Preciso de suporte. Mas vou vencendo aos poucos. Um pouco todo dia. Eu aprendi, a poucos anos, mas aprendi a me expressar através da escrita e faço bem. Dou algumas palestras nas escolas sobre autismo com minha amiga que é psicopedagoga. Eu gosto de ajudar. Minha oralidade está melhor com isso.


Meu propósito é ajudar para que as crianças não passem pelo que eu passei e que os adultos se entendam, por isso gosto de falar e escrever sobre autismo. Gostaria que um dia todos os autistas fossem ouvidos. Desde os não verbais por meio da comunicação alternativa, até os verbais falando por si e decidindo sua própria vida.

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